Há dias assim, em que me sinto estranha, diferente, com a ansiedade presa nas pestanas, prestes a inundar. Mil e um pensamentos divergem na minha cabeça e entorpecem os meus sentidos e as minhas reações. Perco mais facilmente a paciência, sou mais brusca e sinto-me muito mais carente.
Tenho 26 anos (pelo menos durante
mais uns meses), uma relação de 10 anos com o amor da minha vida, o homem
que mais acredita em mim, me venera e apoia incondicionalmente. Graças ao apoio
do meu amor consegui abrir um centro de estudos do qual sou responsável e onde
exerço, com muito amor, a profissão que escolhi.
Não conheço invejosos do meu
percurso, afinal esses não costumam ter coragem de o dizer, mas aposto que
os existem. A esses, digo-vos, além do amor envolvido em toda a minha vida,
nada têm para invejar.
Ser trabalhadora independente foi
uma grande decisão, nada ponderada, que parecia a mais acertada. Ainda o
parece, mas as contrapartidas são diversas: não podemos tirar férias quando
queremos, só quando os alunos não precisam de nós; os fins-de-semana não são
completos, porque todas as horas ocupadas com alunos simbolizam uma folga
monetária ao fim do mês; os momentos de descanso são raros porque o pensamento
não lo permite: contas, fichas e problemas por resolver aparecem repetidamente
na nossa mente, como pop-ups que não desistem de reabrir enquanto não
descobrirmos qual a forma de os parar, neste caso, até aparecer o sinalzinho de
CHECK em frente a todos os pontos da lista de afazeres.
Digo com muito orgulho que sou
boa no que faço. Os alunos adoram-me e eu a eles. As notas melhoram em
concordância com a confiança e autoestima de todos eles. Todas as vitórias
deles, são minhas também. E quando eles falham, quando decidem ser preguiçosos
e desistir, também eu sinto que falho porque não os motivei o suficiente.
Percebo que não seja diretamente culpa minha, até porque cabe aos pais impor
horários de estudo, mas lá no fundo eles também são meus e o sentimento de
desilusão aparece, para comigo e para com eles.
Mas então, se sou feliz com o que
faço e com quem o faço, porque me sinto tão incompleta, tão perdida?
Há dias assim… em que me sinto
estranha…
Agora já consigo identificar o
que se passa: ansiedade, a minha querida companheira dos últimos 10 anos.
E perguntam vocês: Se tens uma
vida tão organizada como sofres tanto de ansiedade?
Desde que me lembro de mim que
sempre me vi como alguém extremamente sensível, tendo esta tendência vindo a
piorar com a idade. Pequenas opiniões, comentários, ou ainda pior, falhas
minhas, fomentam o crescimento daquele formigueiro que insiste em toldar
pensamentos, atos e emoções. Gosto de me sentir estável, de ter o meu cantinho,
de me sentir confortável e em paz. E falta algo para o conseguir…
Tenho 26 anos, uma licenciatura, um
mestrado, um emprego, um namorado, mas não tenho o meu canto, a minha casa. E
sim, associo grande parte da minha turbulência emocional a este facto. O que
mais desejava era poder chegar a casa todos os dias e receber aquele abraço que
me faz esquecer todos os problemas, mesmo que só consiga falar após meia hora
(quando chego a casa preciso de silêncio durante algum tempo, passo muitas
horas com crianças)! Quero poder fazer as minhas refeições, ter os meus
horários e rotinas, sem que ninguém interfira neles de forma a os prejudicar.
Muitos compreenderão esta minha
necessidade de um espaço com regras, com organização, com a disposição que eu
preciso para que tudo corra bem. Neste momento, o que me falta é um local a que
possa chamar de minha casa e onde possa aplicar todas estas esquisitices
necessárias.
Sim, sou picuinhas e normalmente
gosto que as coisas sejam à minha maneira, e no meu lar, sinto que preciso
realmente de o ser.
Ter o meu negócio não facilita
este desejo, não é possível um bom salário em que consiga poupar o suficiente,
pelo menos para já. Mas eu acredito! Eu acredito em mim, em nós e nos nossos
planos, e acredito que coisas boas nos estão destinadas, por isso, espero.
Espero ansiosamente por um lar,
um que me consiga acalmar, onde eu sinta que pertenço e que ao entrar na porta,
relaxe, respire e seja eu.
Porque, no fundo, o que mais
quero é conseguir ser sempre eu!
Eu adoro-me a mim e à minha
personalidade e detesto que pequeninos pormenores como estes me consigam
roubar. A ansiedade rouba-me a personalidade, sempre roubou, já a consigo
manter num quartinho fechada durante um tempo, mas não suporto que me roube dos
meus meninos.
Preciso de uma casa. Um lar.
Preciso de tanto, mas preciso de tão pouco. Preciso de mim e preciso de ti, o
meu porto de abrigo!
E claro, de preferência, sempre
com as minhas, de copo na mão!
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