Privados? Sim ou não?

 


Como muitas colegas, vendo que não conseguiria ser colocada num estabelecimento publico, optei por aceitar uma proposta num colégio privado.

Não vou dizer que foi o maior erro da minha vida, porque não o foi. Descrevo este breve período como uma experiência (um pouco traumática, mas muito enriquecedora). Durante aqueles meses de trabalho, presenciei inúmeras situações para as quais não me encontrava preparada (para aqueles que só conhecem a gestão quotidiana de uma escola pública, enfrentar um colégio privado pode ser assustador).

Como desbocada que sou, custou-me muito saber que todas as ilegalidades cometidas nunca mudariam, pois nunca ninguém se queixa, e quando o fazem, são convidadas a sair ou a permanecer nas mesmas condições.

A minha experiência foi realmente esclarecedora. Acredito que nem todos as instituições privadas funcionam da mesma forma, no entanto, acabam por ser todas parecidas.

Pensei muito se o devia fazer, e como não quero ser mais uma a compactuar com esta vergonha, vou “desbroncar-me”. Tudo o que irei referir acontece num dos colégios mais caros do Norte de Portugal.

 Os professores, que após 5 horas de ensino, devem ser dispensados, são obrigados a assegurar acolhimentos, prolongamentos e apoios ao estudo.

 Durante os intervalos e horas de almoço, devido ao número mísero de auxiliares, todas os docentes têm uma escala em que devem assegurar estas mesmas horas de pausa.

 Quando algum colega falta, por alguma razão (excetuando baixa médica com duração prolongada), somos obrigadas a substituí-las pois “assim não somos descontados quando faltamos”.

 Além da vigilância, também nos encontrávamos encarregues de dar o lanche a todos os alunos inclusive partir e descascar a frutinha, e ainda éramos responsáveis por entregar todos os tabuleiros com almoço, vigiar a cantina e ainda comer na mesma sala ao mesmo tempo que eles.

 Concluo com o mísero salário que tal como referido era “o valor tabelado” sendo este valor associado às supostas 5 horas diárias, quando, em qualquer privado, uma professora faz, no mínimo, umas 8 horas letivas em contexto de sala de aula!!!! Sem contarmos com o tempo despendido, em casa, a preparar todos os materiais! Sim, não podíamos reutilizar os materiais já elaborados por outros colegas porque “é um colégio e não podemos utilizar os materiais fornecidos pelas editoras nem materiais utilizados nos anos anteriores, até parece mal!”.

 

É ainda de salientar que a lei que proíbe mais de 5 horas de trabalho sem pausas…. Parece-me que esta lei nunca se aplicou a colégios, ou se aplica, ninguém as faz acontecer.

Quando se é professor, principalmente do 1.º Ciclo, trabalhar durante 5 horas com a confusão, energia e barulho característicos das crianças destas idades, deixa-nos completamente exaustos.

Agora, imaginem trabalhar 8 ou 9 horas nas condições mencionadas anteriormente, sem um único momento de pausa para respirar.... Imaginem bem...

Digam-me: queriam trabalhar num local assim? Onde não se valorizam os trabalhadores, nem as crianças e as suas necessidades? Apenas o dinheiro importa!

Eu não consegui!

Eu despedi-me!

E quando tentaram retirar-me todos os meus direitos, lutei por eles e enumerei as mil e uma razões pelas quais os merecia…

Não gosto de dizer “deste prato nunca comerei” porque não sabemos o dia de amanhã, mas o que não me falta é fé, e eu acredito que se muitos de nós nos deixarmos de calar, conseguiremos mudar algo!!

Trabalhar novamente num colégio? Não, obrigada!


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